quinta-feira, 16 de julho de 2009

há tempos.

Queria te ligar agora.

Nunca vou contar isso pra ninguém. Óbvio.

É daquelas coisas que eu não conto.

Mas me encontro assim. Com vontade de deixar você entrar e fazer bagunça.

Deixar tudo virado, as coisas pelo chão, no avesso do avesso desses.

Jogar fora todo Freud, toda reza, toda mandinga, auto-ajuda, amor próprio, consciência ambiental, responsabilidade social, reserva, aprendizado, vergonha na cara mesmo.

Deixar poluir esse quarto, seus afluentes, meus pensamentos e minha sorte.

Queria te ligar e falar que ainda sou eu aqui, que queria você na mesa da cozinha comendo bolo de fubá com sorvete de creme. Sendo o estorvo que sempre foi.

Que você nunca deveria ter ido além da esquina e que deveria ter concordado com você de que essa casa era sua, meu peito e a pinta da perna esquerda também.

Queria te ligar pra ouvir um consolo de uma tristeza que não existe, queria precisar de você.

Queria uma necessidade urgente, uma paixão daquelas bem de filme, novela, tirinhas...ardente e brega.

Queria que você me sorvesse como num estalar de madeiras antigas de degraus de escadas de um ou dois outros tempos, século, vida.

Sorri, queria você sorri.

Até chora, queria você chora.

Aquela risada cansada de homem de oitenta anos que você tem. Que saudade dela.

Que saudade de ela ser combustível desses dias. Daqueles, né?

Queria te ligar agora e falar sobre o que eu me esqueci de pensar e questionar.

Queria mesmo ter até pensado nessas frases.

A crise, a gripe, a vó, os cachorros, o sonho.

Meu caos se foi com você e essa calmaria me estranha. A gente não se dá bem.

Cada uma senta de um lado da mesma mesa que teve... Eu e essa calma, a gente se olha, lê um livro, descasca batatas e pega num sono acordado que se tornaram os dias.

Queria te ligar pra ver você me olhando, que pessoa bonita eu via que você via em mim.

Você via que eu conseguia, e vendo que você via eu conseguia.

Acho que esse é o x, y, z da questão... Eu sinto vontade de ser amada pelo seu olho.

De ser acreditada por ele.

Não me lembro se o esquerdo ou o direito...mas um dos dois me amava profundamente.

Uma coisa bonita de se ver. Não sei se você conseguiu ver com o olho que te restava...mas o outro...ah! como ele me amava!

Ele era devoto de mim. Você não. Ele sim. Era o que você deixava me amar.

Um de seus olhos.

Ele eu queria ainda. Só hoje. Só pra ver como se vê com um olho eu mesma.

Eu grande e conseguida. Eu saudosa e Eu seguida.

Mas deve ser assim a vida... Nada que um leite queimado e tylenol não possa resolver.


* Ilustração Eduardo Recife. Vale a pena conferir!


5 comentários:

Karla Natal disse...

MEU DEUS... eu gostaria de ter escrito issoooo!
tudo, tudinho verdade!

luizaprado disse...

Eu ando gostando mesmo daqui.. e disso! haha Lindo, lindo! Linda, linda! :')

Flávia Guilherme disse...

Amigos também ajudam neste momento...
Mas você é esperta e sabida.Consegue decifrar os momentos certos.

Camila disse...

Ai. Que coisa mais linda. Estou me sentindo exatamente assim neste momento. Torcendo pro telefone tocar, eu sentar na frente do computador e poder declamar este texto lindo que brotou, eu imagino, de uma saudade ardida que não cessa, por mais que o tempo passe. E o lance do olho me lembrou muito o filme "O escafandro e a borboleta" - lindo e triste.

Um beijo e parabéns pelo texto!

Mah. disse...

Lindo! Nossa...